
Goleiro Lampe emocionado após classificação boliviana para a repescagem
Quando Roberto Baggio isolou a cobrança que selou o tetracampeonato mundial do Brasil, um país inteiro entrou em festa a milhares de quilômetros do Rose Bowl, em Los Angeles. Um mês antes, uma nação vizinha vivia clima semelhante. Com histórico modesto no futebol, a Bolívia nem sonhava em ver seu capitão levantar a taça como Dunga, mas também tinha motivos para celebrar a Copa do Mundo dos Estados Unidos.
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Em junho daquele ano, uma casa em La Paz recebia uma família inteira para churrascos e festejos pela participação de “La Verde” na Copa. A Bolívia não só jogaria seu primeiro Mundial desde 1950, como faria a partida de abertura da edição de 1994 contra a atual campeã Alemanha.
Com apenas sete anos, Carlos Lampe dividia a atenção: havia tempo para assistir aos jogos na pequena televisão da família e também para jogar bola com os primos na rua. Mal sabia que, 32 anos depois, seria ele um dos responsáveis por dar aos bolivianos a chance de viver momento parecido.
Carlos Lampe fala sobre memórias da última Copa disputada pela Bolívia
A campanha boliviana em 1994 não foi das melhores. Derrotada pela Alemanha por 1 a 0 na estreia, a equipe empatou com a Coreia do Sul em 0 a 0 e se despediu perdendo para a Espanha por 3 a 1. Desde então, passaram-se sete Copas, e a Bolívia não conseguiu se classificar novamente. Uma nova chance surgiu para 2026.
Classificada para a repescagem mundial, a seleção enfrentará o Suriname na quinta-feira, às 19h (de Brasília), em Monterrey, no México. O sportv 2 transmite a partida ao vivo, e o ge acompanha em Tempo Real. Se vencer, a Bolívia encara o Iraque na semana seguinte, em partida valendo uma vaga no Grupo I do próximo Mundial, ao lado de França, Senegal e Noruega.
Todos estão com muitas expectativas. Minha esposa e minha filha virão (para o México). Uma das minhas filhas, porque as outras vão ficar. A verdade é que todos estão com expectativas, com muita animação de cumprir esse sonho. Vamos tentar fazer com que isso seja possível.
Carlos Lampe, goleiro da seleção boliviana
Divulgação/@1carloslampe
Lampe é um goleiro histórico do futebol boliviano. Aos 39 anos, acumula quatro participações na Copa América (2016, 2019, 2021 e 2024) e 64 partidas pela seleção nacional, o que o torna o goleiro com mais jogos pela Bolívia. Ele também tem 48 partidas de Libertadores, muitas delas contra brasileiros, o que se repetirá em 2026: sua equipe, o Bolívar, está no grupo do Fluminense.
Nada disso, segundo o próprio, equivale à chance de levar o país de volta à Copa do Mundo após 32 anos de espera. Suriname e Iraque são tudo o que separa a Bolívia de um sonho que, nas palavras de Lampe, sempre existiu, mas nunca esteve tão próximo.
Carlos Lampe fala sobre sonho de ir à Copa
Nos últimos anos, Lampe tem enfrentado equipes brasileiras sucessivamente na Libertadores com o Bolívar. O goleiro brinca que o clube teve azar nos sorteios da competição, sempre encontrando times do país no caminho. Além da campanha de 2023, quando foi até as quartas de final da competição, ele destaca a edição seguinte, em 2024, quando enfrentou o Flamengo na fase de grupos e nas oitavas de final.
— O Bolívar tem uma linda equipe, jogamos de igual para igual com Flamengo, Palmeiras, Atlético-MG, Internacional, Athletico-PR, que foram os últimos times com os quais tivemos que jogar. Creio que o jogo que fomos mais difíceis de derrotar foi contra o Flamengo em 2024. Fizeram o segundo gol no Maracanã no último momento, e na Bolívia vencíamos por 1 a 0 e aí mandamos no travessão, na trave, ou Rossi defendia. Reconheceram nossa forma de competir e de jogar. Quando fomos ao Maracanã também estivemos perto de empatar em 1 a 1, jogando bem contra uma equipe que é superior à nossa, com muitas estrelas.
Se não vinha o Flamengo, vinha o Palmeiras (no sorteio), as duas melhores equipes na atualidade no Brasil. São times com elencos europeus, que se gostam de um jogador na Europa, trazem. Equipes que o objetivo é ser campeão da Libertadores, do Brasileirão. É muito difícil jogar contra eles.
Bruno Henrique e Lampe depois de Bolivar x Flamengo
AIZAR RALDES / AFP
O goleiro não esconde o fator altitude do contexto. Lampe chama atenção para o estilo do time boliviano, que busca aumentar o ritmo para explorar o efeito dos mais de 3.600m de La Paz nos adversários.
— A verdade é que com o Bolívar levamos vantagem porque somos uma equipe agressiva, que não dá a bola aos rivais e tenta circular muito rápido e controlar a posse. Acho que temos vantagem e fazemos (os adversários) sentirem o efeito da altura. Nesses últimos anos só perdemos um jogo em La Paz, contra o Internacional. Era o “Chacho” (Eduardo) Coudet, técnico argentino, que sabe como se portar na altitude.
A vasta experiência no futebol sul-americano pode ajudar contra os adversários da repescagem, segundo Lampe. O goleiro aposta no estilo passional do continente e no fanatismo dos torcedores bolivianos que, acredita, marcarão presença no estádio em Monterrey. No entanto, prega atenção e cuidado com Suriname e Iraque.
Nós, tirando um jogador, somos todos bolivianos, amamos nosso país, nos criamos, temos toda a nossa família lá. Vivemos o futebol, seguramente, muito diferente, porque na América do Sul você sabe que há muita paixão. Acho que isso nos faz ter uma leve vantagem.
Carlos Lampe fala sobre expectativa de torcedores bolivianos no México
— Vejo muito equilíbrio. Porque eles (Suriname) também estão nacionalizando jogadores de primeiro nível, três que jogam em ligas muito boas. Mas no campo vai ser muito duro, vamos ter que lidar com o estresse, a pressão, mas nós estamos acostumados. E se ganharmos, seguramente vai ser ainda mais duro contra o Iraque. Mas acredito que para nós, a chave é o primeiro jogo, porque sabemos que fisicamente eles são fortes, e acredito que isso equilibra o jogo, é uma seleção muito dura.
Se passar pela repescagem, a Bolívia poderá contar com um nome conhecido do futebol brasileiro na Copa do Mundo. Marcelo Moreno saiu da aposentadoria, assinou com o Oriente Petrolero e vem trabalhando para tentar retornar à seleção pelo sonho do Mundial. Ainda que Moreno tenha ficado de fora da convocação para o torneio classificatório no México, Lampe acredita na possibilidade de tê-lo como companheiro na América do Norte em junho.
Conheço o Marcelo, eu conheço a disciplina dele como jogador, ele é um jogador histórico da seleção, do nosso país. Acho que eu vejo possibilidade, porque se ele continuar se treinando, se cuidando, e demonstrando, vai depender do Óscar (Villegas, técnico da seleção) convocá-lo ou não.
— Mas, agora, eu acho que o mais importante é que temos que passar para que se dê a ele, como a outros jogadores, a possibilidade de poder jogar um Mundial com a nossa seleção, que é um desejo que sempre todos os jogadores vivem. Acho que um dos motivos pelo qual o Marcelo voltou (da aposentadoria) é justamente esse.
O treinador Óscar Villegas é um dos símbolos do resgate da Bolívia ao longo das eliminatórias e do sonho da classificação para a Copa do Mundo. Assumindo “La Verde” no meio de 2024, ele levou a equipe a três vitórias consecutivas nos primeiros jogos, contra Venezuela, Chile e Colômbia.
A vaga na repescagem foi selada com mais dois resultados fundamentais jogando em El Alto: novo triunfo sobre o Chile e uma vitória histórica sobre o Brasil na última rodada, em que Lampe foi às lágrimas após o apito final. O goleiro destaca a chegada de Villegas como um ponto de virada no ambiente da seleção, que parecia fadada a mais um resultado ruim nas eliminatórias.
Carlos Lampe emocionado após classificação da Bolívia para a repescagem
Divulgação/@1carloslampe
— Pudemos ganhar no Chile, em uma Data Fifa que foi muito importante para que pudéssemos acreditar que estávamos na briga, porque ganhamos os dois jogos. Ganhamos da Venezuela e do Chile. E acho que aí voltamos a estar no páreo, porque trocamos de técnico duas vezes. Depois veio o Óscar (Villegas), em seis rodadas estávamos praticamente eliminados. Acho que mudou um pouco o ambiente, se tirou a pressão dos garotos, vieram jogadores mais jovens, com muita vontade de triunfar.
Se disputar um Mundial como goleiro da seleção nem passava pela cabeça do menino de sete anos em 1994, o pensamento do hoje veterano Carlos Lampe é único: repetir o feito do elenco boliviano de 32 anos atrás e ir aos Estados Unidos como um jogador de Copa do Mundo.
— A única coisa que passa em minha cabeça é fechar uma etapa na seleção jogando um Mundial. Acredito que fazer história de verdade, é isso que passa em minha cabeça. Fazer uma história como fizeram os jogadores que foram ao Mundial em 1994, que foram históricos para o país.
Acredito que o único pensamento que passa em minha cabeça é ser histórico com a seleção. É fazer história com o meu país, classificar para uma Copa do Mundo para que as pessoas reconheçam.