Quem esteve no estádio Giulite Coutinho, em Mesquita, no Rio de Janeiro, sabe que o gramado era tão alto que cobria os pés dos jogadores, que a bola mais quicava do que rolava e que o sol causticante gerava uma sensação térmica de 37°C nas poucas sombras na arquibancada.
Tudo isso costuma ser tratado como desculpa. Mas, em uma Série D de Campeonato Brasileiro, não cola. É basicamente a realidade da divisão. Um cenário absolutamente comum e que já foi encontrado pela Portuguesa no ano passado, na fase de grupos e no mata-mata.
América-RJ x Portuguesa pela Série D do Brasileirão
Vinicius Gentil / Portuguesa SAF
Uma das razões do insucesso em 2025, reconhecida pela própria SAF, foi a incapacidade de a Lusa lidar com tudo isso. Um contexto que torna realidade um dos maiores clichês do futebol: jogar pelo resultado. Afinal, não há muito o que esperar ou conseguir na técnica.
Era o caso do embate com o America-RJ, neste sábado (18), pela terceira rodada da primeira fase. Desde antes do apito inicial, ao chegar a Edson Passos, já se sabia das dificuldades em colocar em prática um jogo de toque de bola, de triangulações, de cadência, etc.
Salvo os minutos iniciais, em que o time alvirrubro tentou um abafa, a Portuguesa pouco sofreu sustos. Não se impunha grande dificuldade ao time luso. Era até certo ponto compreensível demorar um pouco a se acostumar com o ambiente e se encontrar, mas só.
O gol de Cadorini, aos 40 minutos, fazendo 1 a 0 para a Lusa, poderia até ter saído antes. No entanto, no momento em que ocorreu, transformava o segundo tempo em um período altamente favorável para resolver a vitória. Afinal, a disparidade técnica era evidente.
América-RJ x Portuguesa pela Série D do Brasileirão
Vinicius Gentil / Portuguesa SAF
Só que, na Série D, a superioridade técnica diz pouco quando a postura não é a correta. Naquela altura, o jogo pedia atenção lá no alto até o apito final, entrega física em cada minuto, zero espaço para o America-RJ e busca constante pela bola que resolveria o confronto.
A Portuguesa, por outro lado, tentou tudo aquilo que faria em uma noite de temperatura agradável em São Paulo, no bom gramado do Canindé, com torcida a favor. Toque de lado, tentativa de letra, capricho excessivo, postura de que nada tiraria a vitória.
Ainda assim, desse jeito, a Lusa poderia muito bem ter feito o segundo ou até o terceiro. A chance mais clara foi aquela de Cadorini, rente à trave. Outra foi o gol anulado por um “impedimento” absolutamente duvidoso em jogada de Salomão. E teve aquele chute de Portuga.
Foi muito pouco para a superioridade técnica e de posse de bola. Mesmo assim, mais que suficiente para decidir. Essa postura, de quase displicência com o embate, custou caro. Aos 45 minutos, no meio-campo, o America-RJ ganhou uma disputa após um tiro de meta de Bertinato.
América-RJ x Portuguesa pela Série D do Brasileirão
Vinicius Gentil / Portuguesa SAF
Emerson Carioca saiu sozinho, isolado, livre, leve e solto pelo campo de ataque, em direção à meta defendida por Bertinato. O zagueiro Eduardo Biazus tentou acompanhar, estava atrasado, não chegaria a tempo e poderia muito bem ter feito o que tantas vezes já fez: falta.
Não fez. Bertinato até defendeu a primeira. Mas, no rebote, veio o empate: 1 a 1. Uma das únicas finalizações do America-RJ em toda a partida. Empate merecido? Pelo desnível técnico, pelo volume de jogo, pelo que criou, não. Só que a Lusa resolveu dar esse ponto de presente.
Desanimador. Afinal, é tema recorrente na Portuguesa desde o ano passado. Segundo a própria SAF, prioridade para a atual Série D. No entanto, no primeiro grande teste, na primeira experiência nua e crua da divisão, a equipe rubro-verde fracassou miseravelmente.
Nem tudo deve ser terra arrasada. Não se pode cair na tentação da cabeça quente, do coração machucado e da revolta imediata da arquibancada. Mas é um alerta. Que deveria ser feito mesmo se a segunda bola de Cadorini tivesse entrado ou o impedimento não fosse assinalado.
Foi apenas a segunda partida de Ademir Fesan como treinador da Portuguesa. É cedo demais para colocar sobre ele responsabilidade por esse problema. Contudo, desde já, fica claro que esse é um dos grandes desafios da nova comissão técnica da Portuguesa.
Ademir Fesan, técnico da Portuguesa
Vinicius Gentil / Portuguesa SAF
Assim como conseguir sustentar resultado, sobretudo nos minutos finais, e parar de sofrer gols. Na rodada anterior foi por muito pouco. Fesan, pelo curto tempo, apenas começou a mexer e testar. Como, por exemplo, Guilherme Santos no lugar de Denis no meio-campo.
Vale lembrar que a Lusa foi a campo com Bertinato no gol; João Vitor na lateral direita e Salomão na esquerda; Gustavo Henrique e Eduardo Biazus no miolo de zaga; Portuga, Thiaguinho e Guilherme Santos no meio; Igor Torres, Cadorini e Maceió no ataque.
João Vitor e Portuga mais uma vez foram as válvulas de escape. Guilherme Santos e Igor Torres batalharam, mas também erraram bastante. Salomão, Thiaguinho e Maceió foram mal. Aliás, Maceió ainda não estreou na Série D. Cadorini pecou por aquele segundo gol perdido.
Carlos Lima teve uma atuação segura. Entrou no lugar de um Gustavo Henrique lesionado, em que a condição do gramado provavelmente influenciou. Aliás, o zagueiro foi tirado de campo com a ajuda dos colegas, quase sem conseguir colocar o pé no chão. Preocupa. Biazus foi aquilo.
Ademir Fesan ainda promoveu a estreia de Toró, após se recuperar de lesão. E mais uma vez teve minutos para observar nomes como Denis e João Diogo. Não fez nada de tão extraordinário, diferente, novo. Só que, além de o elenco não permitir muito, a essência do problema foi outra.
Se diante de um adversário que havia sofrido oito gols nas duas primeiras rodadas, que mal levou perigo, que quase nada construiu, em uma primeira fase, em um estádio vazio, aconteceu isso… imagine em um mata-mata. Esse empate precisa ser usado como virada de chave.
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O próprio Fesan, que conquistou o acesso para a Série C com a Inter de Limeira em 2025, já disse nas primeiras entrevistas na Lusa que não adianta reclamar ou culpar gramado, calor, condições precárias de estádio, etc. É nessas circunstâncias que a Lusa tem de jogar. Ponto.
São jogos em que até se releva alguns pontos sobre a formatação tática e o próprio desempenho técnico de alguns atletas. Afinal, o contexto não colabora. Mas são jogos em que a displicência custa caro e faz a superioridade técnica virar piada. De mal gosto.
*Luiz Nascimento, 33, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site.

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