
Henrique Simeone relembra passagem pela base do Botafogo
Pai mexicano e família brasileira, mas com descendência portuguesa. Essa é a configuração familiar de Henrique Simeone, volante do Tigres (México). Formado nas categorias de base do Botafogo, Simeone se naturalizou mexicano aos 18 anos e chamou a atenção dos grandes clubes locais. Após sondagens de algumas equipes, acertou com o time de Nuevo León.
O Botafogo liberou o jogador sem custos para o Tigres, mas manteve uma porcentagem dos direitos de olho em uma venda futura, segundo apurou o ge.
— Eu estava no Botafogo desde o começo do Sub-15. Era o meu primeiro ano de sub-20, todos esses anos eu estava bem no Botafogo. Sempre fui muito feliz lá. Nesse ano de 2025, estávamos numa sequência muito boa de títulos, eu estava no meu melhor momento no Botafogo, a gente tinha ganhado a Copa Rio, eu estava feliz. Aí chegou a oportunidade de ir para seleção sub-18 (México). Desde março, começo do ano, eu estava conversando com meu empresário… meu pai é mexicano, aí ele falou “seu pai é mexicano? Está falando sério?”. E aí logo pensou na possibilidade de eu virar mexicano e estar na seleção. Ele foi procurando alguns contatos. Eles (Tigres) já estavam me monitorando, aí eu fui convocado em setembro para fazer três amistosos em Bilbao. Depois daí, alguns times ficaram interessados por mim, e o Tigres foi o principal deles. Eu sempre acompanhei o Tigres, eu lembro daquele mundial que ganharam do Palmeiras. Eu vi uma oportunidade muito boa por estar perto da seleção, pelo projeto, pela projeção que eu via que podia ter aqui, mas na verdade eu fiquei muito na dúvida.
— Foi um momento muito difícil para mim e para minha família, por eu ter 18 anos, ir morar sozinho em outro país, outra cultura, a gente ficou bem na dúvida. Mas ,quando batemos o martelo, a gente sabia que era a decisão certa. Foi uma das melhores decisões que eu tomei na minha vida, cada dia que passa estou mais feliz, evoluindo cada vez mais — completou.
Henrique Simeone na base do Botafogo
Arthur Barreto/Botafogo
+ Volante do Botafogo será convocado para seleção sub-18 do México
Henrique atuava com frequência no sub-20 do Botafogo e contava com o prestígio de Rodrigo Bellão, treinador da categoria, que o apoiou na transferência ao Tigres.
Canhoto, atua como volante de origem, mas chegou a jogar como zagueiro pela esquerda quando a equipe ia a campo no esquema 3-5-2. Antes de fazer um teste para ingressar na base do clube de General Severiano, Simeone se considerava um meia clássico, o famoso “Camisa 10”, mas foi convencido a trocar de posição.
— O Bellão é uma pessoa extraordinária. Ele é um excelente técnico, o melhor que eu já tive, mas o que ele se destaca ainda mais é como pessoa. A relação dele com o jogador é muito diferente de tudo que eu havia passado no futebol. Não só eu que falo isso, todos os jogadores que você perguntar sobre ele vão falar a mesma coisa. Ele me ajudou muito, já tive momentos maravilhosos e momentos ruins, de eu chorar no ombro dele. Ganhamos títulos juntos, ele foi uma da principais pessoas para eu estar vivendo hoje, de estar no profissional, seleção. Foi a pessoa mais importante que passou na minha carreira. Quando eu estava nessa dúvida de vir pra cá, ele falou que eu tinha que ir, que era a decisão certa. Ele falou: “você está pronto”. Converso com ele quase todos os dias, ele é um paizão para mim. Ele sabia que era uma grande oportunidade.
— Desde que eu entrei no Botafogo, todos que me conhecem falam que foi uma virada de chave na minha vida. De resiliência, superação. Conquistar tudo que eu conquistei lá foi fruto de muito trabalho. Tenho muito carinho pelo Botafogo, eu fui muito feliz lá. Foram 3 anos e meio de muita felicidade. Também tive momentos muito difíceis. No sub-17, no segundo semestre, foi o momento mais difícil que eu tive na minha carreira. Por motivos que até hoje eu não sei, eu não jogava, eu não viajava. Foi por essas “não convocações”, que eu treinava no profissional. Eu treinava bem e perguntavam “por que esse moleque não está jogando?”. Cresci muito como jogador e como pessoa no Botafogo, eu só tenho gratidão. Saí pela porta da frente. Eu tenho um carinho gigante por todo mundo que esteve lá. Eu sempre ia nos jogos do Botafogo, era muito bom estar torcendo no Nilton Santos. Só tenho que agradecer a torcida do Botafogo, não à toa é um clube que tenho no meu coração — afirmou o volante.
Henrique Simeone comemora título da Copa Rio contra o Vasco
Arthur Barreto/Botafogo
+ Bellão retornará ao sub-20 para ser o elo entre a base e o profissional do Botafogo
Durante a passagem pelas categorias de base do Botafogo, Simeone conviveu com jogadores que hoje despontam no profissional do clube. Kadir e Justino são os dois maiores exemplos, mas foi com o panamenho que Henrique manteve uma relação mais próxima. De longe, o volante de 18 anos acompanha a trajetória de Kadir na equipe de cima.
— O Kadir, que está voando no profissional, a minha história e a dele são muito maneiras. Ele chegou no Botafogo no meio do ano de 2024, no sub-17, que foi no momento que eu estava passando dificuldade, não estava jogando, e ele também não estava jogando, por ser panamenho ele tinha que completar 18 anos pra poder jogar. Então, eu sempre ficava eu e ele no Rio enquanto estava todo mundo viajando. Acho que fui o primeiro amigo dele no Botafogo. Ele é uma pessoa maravilhosa, desde lá a gente tem uma amizade muito boa, fico feliz demais por ele, por ele estar se destacando cada vez mais no profissional, fiquei muito feliz quando ele fez os dois gols contra o Sport, eu chorei. Ele foi uma pessoa muito importante para mim, um dos melhores amigos que eu tive no Botafogo — disse Simeone.
Inicialmente, o recém naturalizado mexicano jogava na equipe sub-21 do Tigres, mesmo treinando com o time profissional e até viajando com a delegação. No entanto, no final de março, recebeu a primeira oportunidade em um jogo oficial contra o Tijuana, pelo Campeonato Mexicano. Simeone iniciou entre os titulares, mas foi substituído no intervalo do jogo. O Tigres acabou perdendo por 1 a 0 na ocasião. Ele voltou a atuar no último sábado, na goleada por 5 a 1 diante do Mazatlán, pela liga do México.
Henrique Simeone estreia pelo Tigres, do México
Rafael Quiroga
CONFIRA MAIS TÓPICOS DA ENTREVISTA
ORIGEM DO SOBRENOME
– É sobrenome por parte de mãe (Simeone). Sempre fui chamado pelo meu outro sobrenome, Koifman. Mas aí fui avançando os anos no futebol, e a virada de chave foi no Botafogo. Quando entrei lá, só me chamavam de Simeone, por eu ser volante, ser um nome muito conhecido no futebol. Eu troquei o nome, eu gostava do outro também, mas acho maneiro esse sobrenome.
ESTILO DE JOGO
– Como eu já joguei de camisa 10, eu me considero um jogador técnico. Quando eu desço para volante, pegando o jogo de frente, para quem estava acostumado a jogar de costas como meia, eu gosto mais. Eu me sinto melhor jogando ali, como camisa 5 ou camisa 8. Foi nessa virada que eu mudei um pouco o meu estilo. Eu trabalhei muito a minha marcação e a minha intensidade. Por ser meia, eu não estava tão acostumado. Mas hoje eu melhorei nesse aspecto.
RETORNO AO BOTAFOGO?
– Eu tenho um carinho muito grande pelo Botafogo, mas hoje estou no Tigres e estou muito feliz. Aqui, estou em casa também. Espero construir uma grande carreira no Tigres, mas quem sabe mais lá na frente?
RELAÇÃO COM O MÉXICO
– Minha família toda é do Brasil, mas meus avós, antes de meu pai nascer, vieram para cá (México) para trabalhar. Quando meu pai nasceu, eles estavam aqui; moravam na Cidade do México. Eles ficaram até ele completar dois anos, mas meu pai não fala nada de espanhol, minha mãe também não. Sempre soube que ele era mexicano, mas nunca passou pela minha cabeça ir jogar no México. Quando falei com meu empresário, ele plantou essa ideia. Foi começando a tomar proporção, veio a seleção, e daí foi evoluindo cada vez mais. Foi a decisão certa, mas nunca tinha passado pela minha cabeça jogar na seleção mexicana. É muito difícil alguém vir para cá nessa idade, é raro acontecer isso.
CHEGADA AO TIGRES
– Fui muito bem recebido no profissional, mas também no sub-21 e na seleção. Fui muito bem tratado por todo mundo, sem exceção. No profissional, é um sonho estar jogando com esses caras que eu via no (jogo de vídeogame) Fifa. Gignac e Guzmán, que são lendas do clube, têm mais de 500 jogos e vários títulos aqui. Tem também o Correa, um cracaço de bola. Estar com esses caras todos os dias e aprendendo cada vez mais é muito bom. Eu sempre falo que estou vivendo um sonho. Destaco também os brasileiros, Rômulo e Joaquim, que foram muito importantes para mim. Não é fácil chegar aqui e falar com todo mundo em outra língua; ter eles do meu lado ajuda muito. Já saí com eles, e eles me acolheram como um irmão mais novo. O Gignac é uma lenda, e eu ainda não me acostumei. A qualidade que ele tem é surreal. Ele é uma pessoa muito boa. Não sei quanto tempo ainda vai ficar, mas espero aproveitar ao máximo e aprender com ele.
DIFERENÇAS DO JOGO NO BRASIL E NO MÉXICO
– Eu acho que, no Brasil, é um jogo mais pegado e mais corrido. Eu tinha a impressão de que aqui era um jogo mais de transição, de correria. Aqui, porém, é um jogo mais controlado. Não estou comparando os níveis, dizendo que um é melhor ou pior que o outro, mas achei que o jogo daqui é mais cadenciado e não tão físico quanto o do Brasil.
ADAPTAÇÃO
– Eu pensei que a adaptação seria mais difícil, mas, graças a Deus, fui muito bem recebido por todo mundo e, dentro de campo, as coisas também iam muito bem. Estou feliz, mesmo longe da minha família e dos meus amigos. A cada dia que passa, fico ainda mais feliz. Treinar no profissional agora também é muito bom. O fato de as coisas terem dado certo desde que cheguei facilita. Meus pais vieram algumas vezes para cá, o que ajuda bastante; eles me ajudaram na mudança para o apartamento. Sempre que podem, vêm me visitar. Este ano foi mais fácil: tive férias e pude ver minha família e meus amigos. Estar treinando no profissional desde o começo do ano, já conhecendo a cidade, também ajudou muito. Não é fácil estar longe do Rio, quem mora lá sabe o quão bom é, mas Monterrey também é uma cidade muito boa. Estou gostando muito de estar aqui.
LÍNGUA LOCAL
– O primeiro contato que tive com o espanhol foi na seleção. Eu já tinha feito cinco aulas para não chegar sem saber nada, mas, quando cheguei lá, achei que tinha aprendido alguma coisa; depois percebi que eles falam muito rápido. No começo, nessa primeira viagem, eu me virava, falava em inglês quando não entendia. Agora, depois de seis meses aqui, já estou falando bem e entendo praticamente tudo.
GUIDO PIZARRO
– O Pizarro é ídolo aqui no Tigres. Todo mundo da equipe tem um carinho muito grande por ele. Ele também era volante e tinha um estilo de jogo parecido com o meu, o que tem me ajudado. Para a nossa equipe, dentro do nosso estilo de jogo, ele quer ter a posse o tempo inteiro, e isso, para mim, é ótimo, encaixa com o meu jogo. O Guido é uma pessoa maravilhosa, tem me ajudado muito. Só tenho a agradecer a ele e a todo o corpo técnico por todas as oportunidades que venho recebendo. Eu vejo os vídeos dele, converso com ele e com os auxiliares; é fácil aprender assim.
TRABALHO MENTAL
– Foi muita coisa em muito pouco tempo. De uma hora para outra, viajei, voltei da seleção e, logo depois, já estava no México… foi tudo muito rápido. Eu me considero um cara tranquilo, lido bem com as mudanças e conto com o apoio da família. Faço acompanhamento com um psicólogo, que me ajuda muito. Muitos falam que é bobeira, que jogador acha que é brincadeira, mas é algo muito importante, mesmo quando se está bem. Recomendo para todo mundo. Ficar sozinho aqui não é fácil, mas o apoio da família, dos amigos daqui e do Brasil, além do meu psicólogo, faz com que essas mudanças fiquem bem mais fáceis.
HOBBIES NO MÉXICO
– Já tenho meus amigos aqui. O Joaquim, o Rômulo, os brasileiros… A gente treina de manhã e chega em casa à tarde. Depois, saio com eles; já fui jogar paintball com a galera do time, já saí com o Rômulo, que é uma pessoa muito importante aqui para mim, sempre me incluindo, me chamando para almoçar na casa dele. Também saio com meus amigos do sub-21, chamo eles para o meu apartamento para ficar de resenha, isso ajuda muito.
FUTURO
– Eu penso muito um passo de cada vez, um dia após o outro. Estou no momento que tenho que treinar cada dia mais, evoluir. Vou alcançando meus objetivos aos poucos. Primeiro era chegar aqui, virar titular do sub-21, depois virar uma das referências do time, chegar no profissional, treinar bem no profissional, estrear. Dá uma tranquilidade para continuar. Tenho certeza que só o começo da minha carreira, agora é continuar trabalhando para ter mais minutos e estar pronto quando eu tiver outras oportunidades. Me vejo aqui no México, no Tigres, por um bom tempo. Me sinto em casa, quero construir uma boa carreira aqui no Tigres.
+ ✅Clique aqui para seguir o canal ge Botafogo no WhatsApp
🗞️ Leia mais notícias do Botafogo
🎧 Ouça o podcast ge Botafogo 🎧
Assista: tudo sobre o Botafogo no ge, na Globo e no sportv